Fotograma

Mourir à Madrid

“Entre 1936 y 1939 explotaron en España mil años de historia. Fue la última guerra de hombres, la primera totalitaria. En esos años un mundo murió y nació otro, el nuestro. Ese momento es nuestra película, la historia de un giro, de esa noche del universo marcado por el signo de Guernica y de la 5ª columna, por la muerte sistemática y el choque de ideologías.” (Frédéric Rossif)

 Em 1962, Frédéric Rossif chega a Espanha com o propósito de fazer um documentário sobre a Guerra Civil Espanhola chamado, A Espanha Eterna, conseguindo para esse efeito as necessárias autorizações das autoridades franquistas. Após conseguir algumas imagens dessa Espanha contemporânea, produz em 1963, com o precioso acréscimo de imagens de arquivo, o documentário Mourir à Madrid.

 Mourir à Madrid, colocando-se deliberadamente do lado das forças republicanas, é produzido em plena guerra-fria, quando as águas da política internacional agitam-se violentamente, como prenúncio de uma catástrofe. Na Europa assusta e incomoda a sombra da Segunda Guerra Mundial, em Espanha revela-se duro para o povo espanhol confrontar-se com esse passado que ainda castiga o seu dia-a-dia.

Como em toda a criação da peça artística e/ou intelectual, no cinema a montagem dos planos revela também a montagem histórica, cuja imparcialidade parece ser, definitivamente, contrária à própria definição do ser humano. Este documentário revela-nos duas forças políticas: uma republicana, anti-fascista, outra autoritária, totalitária e anti-democrática. Perante este esquema simplista são fornecidos os factos cronológicos, é-nos desvendado uma guerra de posições ideológicas superfluamente afloradas criando uma ideia de que essas forças funcionam fundamentadas pela união dos seus valores políticos. Na verdade a guerra civil inicia-se com uma revolução despoletada pela ameaça dos militares sublevados fascistas perante a vitória da Frente Popular nas urnas, revolução essa que teve o seu coração na Catalunha onde as forças anarquistas eram maioria e eram força através do seu sindicato, a Confederación Nacional de Trabajadores e a Federación Anarquista Ibérica. Tendo como ponto de partida os libertários espanhóis o lado republicano prolonga-se com sindicalistas revolucionários, socialistas, comunistas, separatistas católicos (Pais Basco), comunistas e republicanos que se mantinham fieis à idéia de liberté, égalité, fraternité. Do lado fascista a união também está longe de ser uma garantia uma vez que temos o lado militar que irá assegurar o regime e controlar as diversas facções que se digladiam, como as forças monárquicas e os seus exércitos de carlistas, a falange espanhola e o seu exercito de trabalhadores, e os conservadores, republicanos ou não, que temiam acima de tudo o perigo rojo.

Mourir à Madrid não deixa de ser um excelente documentário que nos dá a conhecer uma parte da nossa história, cuja brilhante montagem, seja do documentário seja da história, nos faz pesar o papel que as nossas ideias podem ter, ou poderão ter na vida, e de que lado as colocamos, mesmo simplificando. 

Veredas de João César Monteiro

Veredas, um filme que nasce da terra portuguesa, que se transcende na mitologia, que se propaga na tradição oral, interpela-nos no sentido do real. Este é o ponto de partida para que um cinema novo seja visto numa situação de confronto.

 Veredas, um filme de 1977, revela-nos um mundo rural que, no início, transporta-nos para um universo arcaico, medieval, bem distante das realidades pós revolucionárias do 25 de Abril. Com o avançar do filme a ambiguidade entre o real e a ficção faz-nos questionar uma história, será a da Branca-Flor, que começa no norte e termina no sul. Este filme revela-se e constrói-se numa vereda, num caminho que nos obriga a atravessar o rio Lethes, numa travessia do Alentejo que é a travessia da dor. Pelas veredas que percorremos fica aqui a história do burrinho…     

Six Men Getting Sick by David Lynch

Six Men Getting Sick foi a primeira incursão de David Lynch no cinema. Com esta curta realizada em 1967, durante o segundo ano de estudos na Pennsylvania Academy of Fine Arts, Lynch pretendia, segundo o próprio, criar uma noção de movimento nos seus desenhos.  

 

I was painting very dark paintings. And I saw some little part of this figure moving, and I heard a wind. And I really wanted these things to move and have a sound with them. And so I started making an animated film as a moving painting. And that was it.

 

Depois do seu desejo concretizado Lynch descreveu esta curta como fifty-seven seconds of growth and fire, and three seconds of vomit.

Toutch Of Evil by Orson Welles

Toutch of Evil (1958), traduzido em português para A Sede do Mal, foi o último grande film noir, enquadrando-o na época clássica deste género que vai desde os inícios dos anos 40 até finais dos anos 50. O realizador é Orson Welles que interpreta a personagem Hank Quinlan, um polícia corrupto, uma personagem sórdida que envolve a investigação que leva a cabo na decadência da sua própria vida, habituado a viciar os dados a favor da sua vontade.

Para além do brilhantismo que Orson Welles demonstra enquanto actor, mostra-se imperativo falar sobre o domínio técnico que o realizador demonstra neste filme, revelando não só uma evolução neste aspecto como fazendo-o com o sentido de enriquecer o filme e a história nele contada. Para além do já conhecido uso do contra-picado, Welles utiliza também inovadores planos de câmara à mão e o uso de objectivas de grande abertura de forma a distorcer a imagem. Logo na abertura do filme temos o famoso plano-sequência de três minutos que começa com um plano de pormenor dum dispositivo de explosivos a ser programado. Repare-se na abertura de diafragma e na forma como esse mesmo dispositivo, ao surgir o som de uma gargalhada, dá a sensação de arrastar a câmara para a direcção da pessoa que deu a referida gargalhada. Outra nota importante aqui é a música. Com o aparecer da bomba, começa a música criando o som do relógio que a fará detonar, sendo, ao mesmo tempo, a estrutura rítmica do plano enquanto revela o ambiente das ruas. De seguida a câmara sobe acompanhando o carro onde foi colocada a bomba, até que encontramos as personagens Ramon e Susan Vargas, interpretadas por Charlton Heston e Janet Leigh. O casal Vargas ganha relevo no enquadramento enquanto o carro passa para um suspeito segundo plano até chegarem à fronteira, onde, por breves momentos, nos detemos novamente no carro e seus ocupantes. Quando encontramos novamente o casal Vargas ouve-se o som de uma explosão…

Tetsuo – The Iron Man

 

A influência do cinema e as influências no cinema. Podemos perguntar de que é feito o cinema mas será justo perguntar de que é feito o cineasta, o realizador, a pessoa que vê o cinema?

Tetsuo – The Iron Man, realizado por Shinkya Tsukamoto em 1989, é um filme que (re)trata um homem que se funde em máquina, como podemos dizer que é a máquina que se apodera do homem. Uma coisa salta à vista. As sensações, emoções, desejos, são as de um ser humano que, de forma exacerbada ou distorcida, vão aumentando a um ritmo frenético de tal forma que, a um certo momento, teremos que nos perguntar onde temos a máquina e onde resta o humano?

Recordações da Casa Amarela

«Através da rotação deu-lhe a forma esférica(…), conferindo-lhe pois a figura que é, de entre todas, a mais perfeita.»

(Timeu, c. 410 a.C.)

The Cabinet of Jan Svankmajer

Curta realizada em 1984 pelos irmãos Quay e que presta homenagem ao artista checo Jan Švankmajer, considerado por Stephen e Timothy Quay como o mentor deles.

Uma história que nos fala da questão da aprendizagem, da relação entre um professor e um aluno que se entregam na descoberta das formas, das perspectivas, das ilusões. Depois do professor esvaziar a cabeça do pupilo mostra-lhe o seu fantástico mundo onde reinam objectos, ideias, sentimentos e, onde se estuda o desenho e a migração das formas. Depois de uma última aula sobre animação o aluno recebe o seu livro.

Brilhante animação que continuamente nos espanta sobre as perspectivas de um mundo a aprender!

 

O filme que roda na cabeça do cineasta está longe de permanecer uma ficção. Seja este um filme opaco, secreto ou (volte face) aberto e transparente, seja ele uma narrativa com personagens, com história, com amor, será sempre o que o cinema essencialmente é. Descoberta. Uma descoberta que nunca nos poderá saciar, uma descoberta cega onde a luz predomina, uma descoberta muda inundada de som. O que nunca nos poderemos esquecer é que o cinema é um empreendimento mútuo, desafortunadamente humano. Como o próprio João César diz:

O cinema talvez seja apenas a procura da distância mais justa entre dois olhares – a distância do olhar que nos olha, o que corresponde à distância de conhecermos como somo conhecidos.

A César o que é de César!

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